Sobre o Nepal e o problema do tráfico humano

Nepal


Panorama

Em 25 de maio de 2008, a única monarquia hinduísta do mundo, depois de 240 anos de reinado, se tornou a República Democrática Federal do Nepal. Poucos dias após a saída do rei, o Palácio foi transformado no Museu Narayanhiti. O país viveu durante muito tempo em clima de tensão e guerrilhas devido a disputas entre a antiga monarquia do país e rebeldes maoístas, que queriam implantar um regime comunista.

Ainda hoje o país continua dando seus primeiros passos para uma democracia multipartidária. O grande e definitivo passo aconteceu neste ano de 2015, quando em 20 de Novembro o país promulgou sua Primeira Constituição.

A cultura é um reflexo da diversidade étnica que compõe o Nepal, todavia o hinduísmo tem muita influência nos costumes, uma vez que 80% da população é hinduísta. O budismo também exerce influência e se mistura com as práticas hindus (cerca de 10% de praticantes). O budismo reza que o Buda nasceu em terras nepalesas.

O ano nepali começa em meados de abril e está dividido em 12 meses. Sábado é um dia oficial de descanso. A moeda oficial é a rupia e no país a língua é o nepali, mas também é falado o inglês. A capital é Kathmandu e a população é de 30 milhões, tendo uma das maiores densidades demográficas do mundo com 184 habitantes por quilômetro quadrado.

É considerado um país pobre, aproximadamente 25,2% da população nepali vive abaixo da linha de pobreza, conforme dados de 2012 divulgados pelo Banco Mundial. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é considerado um dos mais baixos do mundo, igualando-se com muitos países da África.

Mais de 90% da sua mão-de-obra está empregada na agricultura.

Um lugar de contrastes

O Nepal possui muitos contrastes. Ao mesmo tempo que possui lindíssimas paisagens montanhosas, diversidade animal, principalmente de pássaros, os Himalaias, cadeia que possui as maiores e a maior montanha do mundo: o Everest; o Nepal tem escassez de água e energia elétrica.

Essa escassez não é pelo fator natural, mas sim pelo fator político e estrutural. Não existem hidrelétricas suficientes para captarem energia, ou sistema de distribuição de água que supra toda a necessidade, ou tampouco boas estradas para estimular escoamento de produção.

O Nepal é famoso por suas ervas, frutas, mel, porém não consegue exportar satisfatoriamente, não possui indústria desenvolvida e a maior parte da população está aplicada numa cultura de subsistência.

A diversidade de línguas, etnias, castas é impressionante.

É um país que possui um índice de violência baixíssimo no que diz respeito a roubos e assassinatos. Porém, possui altos índices de violência doméstica, que acontece não da porta para fora, mas da porta para dentro.

Um país encantador em suas paisagens naturais, mas suas paisagens urbanas ainda deixam a desejar pela poeira e fraca infraestrutura.

Possui uma beleza humana rara, pela fortuita mistura do povo indiano com o povo mongol, porém acaba sendo vítima do tráfico humano, principalmente de mulheres e meninas.

A grande indústria do tráfico humano


De acordo com uma estimativa conservadora da Organização Mundial do Trabalho (OMT) 2,4 milhões de pessoas, na maioria mulheres e meninas, estão atualmente sob trabalho forçado como resultado de seu tráfico, gerando 32 bilhões para essa indústria em todo mundo. Por volta de 1,2 milhão das vítimas do tráfico são menores e 43% deles para exploração sexual, 32% para servidão involuntária e 25% são uma mistura de ambos.

As vítimas do tráfico no Nepal são levadas para Índia, Oriente médio e outros países, principalmente da Ásia e são forçadas a se tornarem prostitutas, servas domésticas, pedintes, trabalhadoras escravas em fábricas, minas ou circos e outros. Todavia, é para a exploração sexual que a maioria das vítimas são arrastadas. Estima-se entre 5.000 a 10.000 mulheres e crianças traficadas para a Índia somente com este fim.

No próprio Nepal a prática de escravizar pessoas para trabalho forçado, seja para o mercado de prostituição ou outros é assustadora. Estima-se que está em quinto lugar entre os países que mais escravizam pessoas.

O tráfico sexual na Ásia


A UNICEF estima que haja mais de 1 milhão de crianças na prostituição na Ásia. Estima-se que, hoje, haja cerca de 200 mil nepalesas trabalhando nos bordéis somente da Índia.

As causas da venda de meninas estão sustentadas sobre quatro pilares básicos, podendo, a partir deles, ter algumas ramificações:

  • Fator Econômico

Com famílias grandes e sem recursos para a mínima sobrevivência, muitos pais em situação de miséria se tornam presa fácil para os traficantes que oferecem uma quantia para levar as crianças e jovens.

  • Questões de cunho cultural

Existe, de forma geral, um relacionamento familiar muito frio na maioria das famílias do Nepal, principalmente as mais carentes, com muitos filhos. Muitos nepaleses não valorizam o afeto em seus relacionamentos. Eles se relacionam e interagem superficialmente; não há calor excessivo em suas relações. Muitas vezes, não há a prática do compartilhamento entre pais e filhos, maridos e esposas e assim por diante. Há a ação de uma sociedade extremamente patriarcal em que tudo gira em torno do homem; a mulher tem um papel secundário na sociedade e, dentro do contexto familiar, cada qual desenvolve seu papel com certa distância emocional.

Adicona-se a isso a desvalorização da mulher no contexto da cultura oriental. Na Índia e no Nepal comumente ouvimos os homens dizerem: “Não nos importamos que nasçam meninas, desde que seja na casa do vizinho”.

Este provérbio nos mostra como as meninas são mal recebidas na família. O desgosto pelo nascimento de meninas é uma questão tão séria em algumas partes do Oriente que, na Índia — para conter o crescente número de abortos do sexo feminino — foi preciso tomar a medida de proibição da divulgação do sexo do bebê através dos exames de ultra-som. Esta foi uma tímida tentativa do governo indiano de conter o infanticídio feminino.

  • Questões de cunho religioso

Mais de 80% da população do nepal é hindu. Em alguns ramos do hinduísmo, não todos, a compaixão é vista como um sinal de fraqueza, sobretudo quando ligada a questões do carma. Acredita-se que, se alguém poupar o sofrimento de outro, ao invés de ajudá-lo, o estará prejudicando em sua caminhada, via sofrimento, para o aperfeiçoamento do seu carma.

Ainda que muitos desses credos não estejam expostos nos livros sagrados que ensinam o hinduísmo, estão anexados na crença de alguns ramos hindus. Dessa forma, ao aplicarmos a visão hindu sobre o problema das meninas, chegamos à crença de que, se uma menina está passando pela escravidão da prostituição é porque realmente ela precisa passar por esta situação. Já ouvimos isso de alguns populares aqui no Himalaia. É um fator, porém, adicional e não o mais significativo. Fe fato o mais significativo é o fator econômico.

  • Ignorância

Este fator também está ligado ao fator econômico. Famílias pobres nas vilas são facilmente enganadas com falsas promessas de que aqueles “homens” ou “mulheres” que se apresentam a eles como boas pessoas.

Como acontece


Feito o contato e fechado o negócio, a garota fica, por alguns dias, a mercê desse cliente que, geralmente, é um comerciante importante ou alguém bem sucedido financeiramente. O preço que será pago por tal garota é muitas vezes superior ao que foi pago por ela em sua vila. O lucro para o traficante é exorbitante.

Como vemos, essas meninas, já em seus primeiros passos na prostituição, constituem uma fonte de altos lucros a seus “proprietários”. No tráfico, quanto mais nova (até com 6 anos), mais clara e mais bela, mais alto será o valor cobrado por essas garotas. Depois, com o “uso”, ela vai perdendo o preço, até chegar a valer alguns centavos por cada relação sexual, quando já estará doente e improdutiva, do ponto de vista dos donos de bordéis.

As nepalesas são uma grande atração no mercado para a prostituição; primeiro, devido à pobreza e ignorância, como já vimos e, em seguida, pelos traços físicos que possuem. A miscigenação da população nepalesa entre as nações vizinhas como China e Índia, além de povos como mongóis, entre tantos outros, criou características físicas que são vistas como belas e exóticas, como é o caso de sua pele mais clara.

Há, na Índia e no Nepal, uma generalizada discriminação às raças de pele mais escura (ainda que os indianos são, na sua maioria, de pele bem escura). Os produtos de beleza anunciam abertamente em TV, jornais e revistas que os consumidores conseguirão uma pele mais clara se usarem aquele creme ou sabonete anunciado. Por isso, a cor da pele mais clara das meninas nepalesas, em relação às meninas indianas e países vizinhos, faz muito sucesso no mercado da prostituição nas grandes cidades da Índia.

Assista agora nosso documentário sobre exploração sexual dessas meninas do Nepal: